
“Hoje em dia não se tem mais amor á camisa...”
Esta frase se destacou aos meus ouvidos durante uma discursão entre dois senhores que, na cadeira ao lado, seguiam no mesmo ônibus que eu. E embora o seu interlocutor tenha concordado vigorosamente, e a maioria dos brasileiros também concordem, com toda a indignação que a idéia provoque em seus corações, para mim esta frase trás uma certa satisfação. Os jogadores, hoje em dia, correm atrás da bola não apenas por amor, mas principalmente motivados pelo dinheiro que o sucesso do seu bom desempenho lhes confere. O futebol é o ofício do jogador profissional. E nos grandes times o suor que molha suas camisas é muito bem lavado pelos rios de dinheiro que correm em suas carreiras. Por isso, trocar de time não é mais problema. Defender a seleção de outro país, muito menos.

Para mim, isto está mais do que certo. Sendo o futebol o ofício do jogador profissional ele tem mais é que corre muito e fazer gols para quem lhe pagar melhor, quer dizer, para quem pagar mais por ele. Mas é apenas isso, ofício, trabalho, negócios...nenhuma de suas passadas é dada para que isso melhore a qualidade de vida do seu torcedor, nem para aumentar o salário mínimo do cidadão ou diminuir a violência nos próprios estádios. Mesmo assim, a maioria dos brasileiros têm uma bola no lugar do coração, onde as batidas são substituidas pelos gritos de gooooool. Eles têm um enorme amor pela camisa do seu time! (bonito isso, não?) E cada grande jogador tem status de herói nacional, mesmo jogando lá fora, ganhando dinheiro lá fora e gastando também lá.
Infelizmente, se eu tivesse dado minha opinião naquele ônibus – que é contrária a maioria dos brasileiros fiéis, diga-se de passagem – teria apanhado até do cobrador! O futebol, pai-xão nacional, na verdade representa a ipocrisia do brasileiro, que muitas vezes deixa de comprar o feijão para comprar o ingresso para o jogo do seu time do coração; que congestiona o trânsito ao ir ao estádio, atrapalhando a volta pra casa do trabalhador que não pôde ir ao jogo; que briga com o torcedor do time adversário, defendendo a bandeira do seu amado time como se defendesse a bandeira do seu reino contra seu arquiinimigo. Quando o fiel torcedor tiver mais amor pela própria camisa suada do seu dia-a-dia e menos pela camisa do seu time, suada pelas carreiras do jogador que “não está nem ai” para sua miséria, o futebol representará o que realmente deve representar – um esporte, um jogo, uma diversão que deve servir para nos entreter em meio às diversidades.
